domingo, 28 de novembro de 2010

O VAMPIRO (A BÍBLIA DOS ADOLESCENTES) PÁG 20

O VAMPIRO
(A Bíblia dos adolescentes)
Alcio

ZMF Editora

1º Edição

PRIMEIRA PARTE

PAVOR E ÊXTASE

CAPÍTULO 4

LÚCIA GARBO


Pág 20


...A jovem Simone sentiu uma vontade irresistível de sair correndo dali. Mas Lúcia Garbo fez um sinal superamistoso para que ela se sentasse.

A jovem Simone sentou-se obediente. Fez-se um silêncio algo constrangedor entre as duas. Então a jovem Simone murmurou tolamente:

- Juro que não queria atrapalhá-la...

- Não me atrapalhou. - Lúcia Garbo abriu um lindo sorriso em sua direção, e estendeu-lhe a mão direita com carinho. Apertou com ternura demoradamente a sua mão e lhe soprou: - Você é uma das nossas, Simone. Você, ao entrar para o nosso Grupo, tornou-se parte do meu mundo. Eu a amo muito por isso. Não me atrapalha jamais...

A novata sentiu-se um aperto à garganta:

- Posso...ajudá-la, Lúcia? Por favor...posso ajudá-la?

- Sim. Pode.

A novata estremeceu. Era extremamente inteligente e percebeu que Lúcia Garbo ia fazer-lhe confidências.

- Talvez você nem ninguém me possa ajudar. Mas eu estou terrivelmente necessitada de desabafar com alguém.

Mediu a novata com um olhar. Então pensou: podia sim, desabafar com ela. Ela é uma das nossas, agora. Não é uma pessoa qualquer. Deve pensar um pouco parecido comigo. E então poderá me compreender.

Além do mais uma novata de extraordinário talento. Embora tivesse tão somente quatorze anos de idade vencera um desafio colossal ao suplantar mil concorrentes à única vaga aberta do Grupo. Sabe Deus por quanto tempo vinha se preparando em busca de uma oportunidade desse quilate.

Passou a mão direita pelos cabelos da novata Simone. Olhou-a no rosto. Disse-lhe:

- Preciso hoje desesperadamente desabafar com uma pessoa de minha confiança, e a sós. Não quero que ninguém mais do mundo saiba disso...



Pág 20

sábado, 27 de novembro de 2010

O VAMPIRO (A BÍBLIA DOS ADOLESCENTES) PÁG 19

O VAMPIRO
(A Bíblia dos adolescentes)
Alcio

ZMF Editora

1º Edição

PRIMEIRA PARTE

PAVOR E ÊXTASE

CAPÍTULO 4

LÚCIA GARBO

Pág 19
Mas agora sentia uma vibração nova circulando por ali, com a presença da companheira. Será que Lúcia Garbo percebera a satisfação que ela fora a primeira do Grupo a chegar? Será que a notara seriamente embevecida com o seu trabalho? Puxa. Como admirava aquela atriz célebre. A jovem Simone foi ficando tão enrodilhada no seu fascínio pela veterana e, ao cabo de alguns instantes mais percebeu que não estava mais conseguindo concentrar-se no que fazia.
Nunca estivera sozinha, em parte alguma, com Lúcia Garbo. Mas agora ambas estavam provisoriamente a sós naquele teatro enorme. Pensou em ir até ela no camarim, para tentar puxar algum assunto qualquer com ela. Embeveceu-se tanto com essa idéia singela e, assim, por mais um minuto ou dois de tentação, ainda resistiu. Depois, largou as páginas do texto ali mesmo no chão do palco, e dirigiu-se ao camarim da estrela.
- Lúcia... - disse timidamente, introduzindo a metade do rosto no interior do camarim. Lúcia Garbo estava tão completamente distraída, lendo alguma coisa, e nem sequer a notou. Estava sentada em uma cadeira giratória, e trazia uma das mãos no rosto. E foi então que Simone deu-se conta de que Lúcia Garbo estava chorando.
Aquilo angustiou-a, e ia afastar-se, temendo ser indiscreta, mas, de súbito, Lúcia Garbo voltou-se num relance em sua direção, antes que ela sumisse dali. Estremeceu toda, e a jovem Simone pôde ver com desconforto ela dar um pulo da cadeira e emitir um grito surdo de sobressalto.
- Lúcia...perdoe-me - gemeu a jovem Simone, sentindo-se de repente péssima - eu...assustei-a? Eu, meu Deus...eu não pretendia. Devia ter batido à porta. Que idiota. Mas já estou saindo...adeus.
- Não, fique - disse-lhe Lúcia Garbo com um sorriso, para desfazer-lhe o embaraço. Enxugou disfarçadamente as lágrimas do rosto...
Pág 19

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O VAMPIRO (A BÍBLIA DOS ADOLESCENTES) PÁG 18

O VAMPIRO
(A Bíblia dos adolescentes)
Alcio

ZMF Editora

1º Edição

PRIMEIRA PARTE

PAVOR E ÊXTASE

CAPÍTULO 4

LÚCIA GARBO

Pág 18


...da peça, e o público havia se manisfetado com boas gargalhadas de aprovação. Depois de praticamente três anos em cartaz com uma mesma peça de sucesso, vez por outra eles sentiam necessidade disso, de molequemente escamotearem uma ou outra frase original do texto, e darem um colorido novo, "lubrificarem o roteiro um pouco", como diziam eles.

Naquela tarde de domingo, por volta das três horas da tarde, Lúcia Garbo estacionou o seu automóvel nas proximidades do teatro. Saltou rapidamente, com a fisionomia tensa, e procurou esgueirar-se o mais rápido que pôde para o interior do teatro. Assim mesmo, teve de dar cerca de meia dúzia de autógrafos antes de conseguir entrar.

Ia entrar no seu camarim, mas, de súbito, resolveu primeiro dar uma olhadela no palco, para ver se já chegara alguém. Ela estava muito hesitante e confusa naquela tarde.

Por detrás da coxia constatou que as luzes do palco estavam acesas. Espiou, e viu a novata Simone. As cortinas estavam fechadas e, Simone, sentada no chão em posição de ioga, entretinha-se em repassar os seus textos.

- Oi, Simone - disse-lhe Lúcia Garbo, com um suspiro.

A novata olhou na direção dela, e experimentou um arrepio de felicidade na alma. Era a primeira vez que, fora dos assuntos do texto, a grande estrela falava diretamente com ela.

Pôs-se de pé com um sorriso radioso.

- Oi, Lúcia...puxa, como você chegou cedo hoje.

- É - suspirou de novo Lúcia Garbo. Dizendo isso, fez um leve comprimento de cabeça, e retrocedeu na direção do seu camarim.

Simone ajeitou-se, suspirou desapontada, e voltou a compenetrar-se em seus textos.


Pág 18

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O VAMPIRO (A BÍBLIA DOS ADOLESCENTES) PÁG 17

O VAMPIRO
(A Bíblia dos adolescentes)
Alcio


ZMF Editora

1º Edição

PRIMEIRA PARTE
PAVOR E ÊXTASE

CAPÍTULO 4
LÚCIA GARBO

Pág 17


Dentre todas as atrizes do país, a mais famosa, a mais talentosa e bonita, era sem dúvida Lúcia Garbo. Iniciara a carreira no teatro ainda muitíssimo jovem e, desde a sua precoce estréia, já causara sensação. Agora estava com vinte e um anos de idade - e mais de dez de carreira - e cada vez parecia que se ia aperfeiçoando mais. Seus shows ao vivo atraíam centenas de pessoas para vê-la. Seus filmes, milhares. Suas novelas de Tevê, certamente milhões.

Mas, sua menina-dos-olhos, a sua paixão irrestrita, era sem dúvida o teatro. Fora lá que dera os primeiros passoa na carreira. Fora lá que sonhara e realizara os seus primeiros sonhos. Hoje, não trocaria nada neste mundo pelas luzes do palco.

Ela fazia ainda parte de um Grupo, um mesmo Grupo que iniciara carreira há muitos anos atrás, e, por um desses caprichos da vida, ainda não se desfizera. Alguns dos membros tinham bem mais idade do que ela, um ou outro era mais jovem, mas, todos eles eram atração nacional nos outros campos da representação, que não o teatro. No teatro, o Grupo de Lúcia Garbo sustentava há quase exatamente três anos consecutivos uma mesma peça num enorme teatro da cidade, com recorde de público. O nome da peça era "O parto da adolescência."

Naquela tarde de domingo, o espetáculo iniciar-se-ia mais cedo, exatamente às dezoito horas, mas os atores e atrizes haviam combinado de chegar algumas horas antes para aperfeiçoar ligeiramente umas pequeninas modificações que haviam introduzido no decorrer da semana anterior no script...


Pág 17

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

LIVRO O VAMPIRO (A BÍBLIA DOS ADOLESCENTES) PÁG 16

O VAMPIRO
(A Bíblia dos adolescentes)
Alcio

ZMF Editora

1º Edição

PRIMEIRA PARTE
PAVOR E ÊXTASE

CAPÍTULO 3

A CIDADE

Pág 16


...o par de patins Jovem-Chic. E, nesse caso, não importa quem - ricos ou miseráveis - seríamos capazes de por um momento assaltarmos uma velhinha indefesa para os nossos pobres guris frustrados não nos olharem assim, com os seus olhos carentes e enormes, de uma forma tão envergonhada de nós.

Era essa ligeira visão da cidade, forasteiro, que, em pequenas pinceladas, lhe pretendia mostrar. Para que, se algo que aconteça lhe parecer um nada fantasioso, você, tendo em vista o relatado, apenas boceje e não se surpreenda mais.

Dito isto, retornemos mais uma vez ao palácio do governo onde nossa história se desenrola nesse momento.

Deixamos, como vimos, o comandante de guarda daquela noite, coronel Caio César, deixando o gabinete do governador com a incumbência rigorosa de colocar três soldados de guerra à porta do quarto de uma jovem adolescente. E o coronel assim o fez.

Mas, num ponto daquela noite, algo de verdadeiramente inusitado aconteceu. O palácio inteiro foi despertado pelo som de tiros de metralhadora. E o alarme soou por todos os cantos.

Encontraram a porta entreaberta. Espiaram com cautela para dentro e...recuaram estarrecidos.

Atirada no leito, e muito pálida, e sem sentidos, estava a jovem filha do governador. Trazia a marca profunda de dois dentes caninos cravados no pescoço.

Ao redor, caídos, os três soldados, ainda com as armas inseparáveis nas mãos. E com a garganta completamente dilacerada.


Pág 16

terça-feira, 23 de novembro de 2010

LIVRO O VAMPIRO (A BÍBLIA DOS ADOLESCENTES) PÁG 15




O VAMPIRO
(A Bíblia dos adolescentes)
Alcio


ZMF Editora


1º Edição


PRIMEIRA PARTE


PAVOR E ÊXTASE


CAPÍTULO 3


A CIDADE


Pág 15

..., as armas dos policiais de verdade. Seria o caos, dizem muitos, um confronto deles com essas armas com os representantes da lei. Mas eles, por tática - dizem também alguns - não o fazem de forma sistemática. Teria um efeito negativo no ramo de venda de narcóticos, as vendas cairiam sobremaneira no período, dizem ainda mais outros. Chocaria a opinião pública. E o exército também provavelmente haveria que intervir, se se chegasse a ousar o confronto de frente. Age-se com discrição, pois.

Continuemos a caminhada. E, por toda parte, encontramos as duas faces de uma mesma moeda. Do lado dos da rua, a iniciativa e, não raro, a criatividade e a justiça pelas próprias mãos. Do lado dos que se aprisionam detrás de grades de ferro altíssimas, guarnecidas muitas vezes por vigilantes armados, o medo e a fronte molhada de suor.

E o único ele pacífico, o único denominador comum entre esses dois mundos, o da rua e o das casas e dos apartamentos trancados a sete chaves, é um terceiro mundo - de fantasia: o da televisão. O humilhadíssimo aposentado, o menor da sarjeta, o menino rico do portão de aço e arame farpado, o pedinte universitário, o industrial que morre de pânico de caminhar sem escolta, a prostituta esquálida e desnutrida que aposta a vida a cada dia e a cada vez que transa...todos eles inebriam-se e curvam-se hipnotizados diante do devaneio fantástico da tela. Todos inebriam-se com ela, porque todos os valores da vida são passados a limpo é justamente ali. Exatamente ali. E se acaso a garota-propaganda acende diante de nossos pobres olhos um cachimbo de espirais de ouro, todos os mortais que não fumam experimentam na alma a nostalgia dos haréns. E, se outra ninfa diz: "o quê? Você ainda não comprou o seu par de patins Jovem-Chic?" Cada um de nós sente desabar sobre nossas cabeças o céu e o estigma das humilhações seculares...se acaso ainda temos....

Pág 15

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

LIVRO O VAMPIRO (A BÍBLIA DOS ADOLESCENTES) PÁG 14

O VAMPIRO
(A Bíblia dos adolescentes)
Alcio


ZMF Editora


1º Edição


PRIMEIRA PARTE


PAVOR E ÊXTASE


CAPÍTULO 3


A CIDADE


Pág 14


...falam - a cada pegada que encontramos - do orgulho irredutível dos que ergueram do nada o apogeu de um Império.

Caminhemos, pois, a pé. Da cidade que lhe falo, os primeiros indícios que encontramos, ao longo mais obscuro de cada esquina, são fezes. Fezes eliminadas soturnamente durante a noite pelos que têm como teto as estrelas, e habitam o meio das ruas. Praticamente ao longo da maior parte das esquinas encontramos fezes pela manhã. E, pelo aspecto e consistência das fezes podemos constatar o quanto doente estão as pessoas que habitam as ruas. Mais adiante, forasteiro, há um menino de dois anos de idade sentado numa calçada. E - cena surrealista - tem no colo um menino de seis meses de idade. Pede esmola para o mais pequeno. Na quadra seguinte há um velho viaduto . Debaixo do velho viaduto, centenas de pessoas esfaimadas construiram suas casinholas com madeiras toscas surrupiadas das feiras, ou encontradas ao acaso. Há uma verdadeira comunidade instalada ali. Há até mesmo uma escola particular feita de madeira podre um pouquinho melhor. Hoje é dia de festa na escola, está escrito em spray num grande quadro na porta: "estamos comemorando o nosso terceiro aniversário. Obrigado a você que nos prestigiou". E escrito sem um erro de gramática. Absurdo? Forasteiro, forasteiro, você ainda não viu nada.

Logo adiante há os primeiros indícios de que nós, por descuido, nos aproximamos em demasia de alguns dos sem número de morros famosos. Por quê? Já vejo homens discretamente postados pelas imediações patrulhando algum ponto do território delimitado. Alguns deles trazem consigo de forma quase camuflada , um exemplar da última geração de armas manuais de guerra inventadas pelo mundo. Não são policiais, como seria lógico parecer. São guardiões de pontos de tóxicos. As armas que possuem, por fantasioso que possa parecer, superam em modernidade e (nem se fala) em munição...


Pág 14